As nuvens, baixas, escondem o cume da serra de Montejunto. No sopé, a chuva cai, persistente, mas sem violência. Não é torrencial como as previsões faziam prever. O tempo tristonho junta-se à proposta de orçamento de Estado para o próximo ano e o horizonte torna-se mais sombrio para os que vivem do seu trabalho e para os pensionistas.
É a água tão desejada pelos pequenos agricultores que já vão rareando por esta região. A maioria são velhos de idade que só mantêm as propriedades por apego. Delas pouco ou nenhum sustento tiram. Quando algum filho ou filha vem de visita é uma alegria. Sempre dão uma ajuda para arranjar o alpendre ou para a trasfega do vinho novo, agora que as vindimas já terminaram e vamos a caminho do São Martinho. Vêm e vão sempre apressados que é lá, nas cidades grandes, que têm os empregos. Por esta terra não há nada. Os poucos que por aqui ficaram foram trabalhar nas duas prisões, elas também envelhecidas.
O sol continua escondido e a chuva incessante encharca a terra. Hesito em pedir à “alexa” uma estação de rádio. É hora de noticiários. Sei antecipadamente que vou ser martelado com minutos, muitos minutos, de tretas sobre a proposta de Orçamento de Estado para 2025 entregue ontem ao parlamento.
Dizem os comentadores que a proposta do governo do primeiro-ministro Luís Montenegro (PSD, direita) não é muito diferente de alguma outra que fosse subscrita pelo Partido Socialista (PS), pelo menos pela sua ala direitista, digo eu.
Talvez tenham razão. Ambos morrem de amores pelo capitalismo. A luta política entre eles visa, sobretudo, garantirem clientelas políticas. Os comentadores fazem por ignorar os partidos de esquerda e a extrema-direita esfrega as mãos. Ventura, o seu chefe, desdobra-se em truques e traques de ilusionismo político para tentar manter no redil cerca de um milhão de incautos que lhe entregaram os seus votos nas últimas legislativas… E assim vai o país. É a democracia pujante que temos. E os comentadores que merecemos. Uns, poucos, que sabem o que dizem; outros nem tanto.

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