O sol, tímido, procura romper as nuvens densas que se acastelam sobre a casa. O pinhal selvagem que teima em crescer, desordenado, está escondido pelo nevoeiro que persiste, já a manhã vai a meio. O outono finalmente chegou.
Os castanhos e os amarelos esmaecidos são agora as cores dominantes nas videiras que se estendem em filas organizadas sobre o vale vizinho. Em breve, uma dúzia de homens e mulheres chegarão à estrada de terra batida que me separa do vinhedo, um dos poucos que, por aqui, dá a ganhar ao proprietário. Virão fazer a limpeza e preparar as videiras para um novo ciclo.
Raramente vejo os vizinhos, que fazem as suas vidas a uns trezentos metros de onde eu faço a minha. São casas isoladas. Agora, que fui lançado numa nova etapa, procuro habituar-me à solidão. O silêncio, esse, já há muito faz parte da minha vida. Conforme o tempo, a quietude é cortada pelo chilrear dos pequenos pássaros que vão voando de árvore em árvore, com alimento farto e sem grandes inimizades que os coloquem em perigo. O barulho de motores, de carros ou de qualquer máquina agrícola, é raro. E nem os tratores se fazem sentir. As terras estão quase abandonadas. Por vezes, aos sábados, quando um ou outro filho vem de visita lá passa uma máquina agrícola a caminho das pequenas propriedades que, inexoravelmente, ficarão ao abandono.
Os filhos e netos, nascidos já depois da revolução, precocemente apagada, tiveram possibilidade de estudar, fizeram pelo menos o ensino obrigatório, e partiram em busca de um futuro.
Aqui só teriam um pedacinho de terra, os que a têm, que não dá para o sustento de ninguém ou, sabe-se lá como, conseguiriam um emprego numa das duas prisões instaladas no território de Alcoentre. Uma, também velhinha, com sete décadas de vida, está dentro da vila; outra, menos velha, que dizem de alta segurança, está escondida, a caminho das Quebradas.
O envelhecimento constante da terra só foi quebrado pela chegada de imigrantes. São quase todos asiáticos, sobretudo oriundos da Índia. A freguesia tornou-se um dormitório, onde chegam ao final do dia de trabalho vindos de outras localidades onde labutam em engarrafadoras de vinho, aviários ou nesta ou aquela exploração agrícola de maior porte.
São o senhor Patel e a dona Arpita que me valem para, de quando em quando, me darem uma mão na limpeza do terreno e na manutenção da casa. Ele, antes de aqui chegar, há meia dúzia de anos, estudou gestão de empresas na Índia e na Polónia, por onde passou mas onde não se adaptou. Mais tarde, a dona Arpita e o filho, o Asia, vieram aumentar a população de Alcoentre. Hoje, posso dizer que são meus amigos. Talvez, um dia, possam partir para outras paragens, onde a língua não é tão rebuscada, como a nossa, e os salários muito mais atraentes. Talvez…

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