Os protestos espontâneos que têm ocorrido desde segunda-feira em bairros periféricos de Lisboa não nasceram do nada. Os conflitos frequentes entre moradores e forças policiais têm décadas. A insatisfação das comunidades multiétnicas que habitam os chamados bairros sociais, causada pela pobreza, pela perceção de injustiças sociais e discriminação, tem-se manifestado por vezes em ações mais ou menos radicais, rotuladas pelos governos como “desacatos” ou “distúrbios” ou “atentados” à ordem pública.

Na última segunda-feira, durante mais uma operação da PSP, cujos objetivos ainda são mal conhecidos, um morador do bairro Cova da Moura, de 46 anos, foi perseguido e alvejado mortalmente por um polícia. O assassinato causou a onda de revolta que agita os moradores dos bairros periféricos da Grande Lisboa. Um autocarro e vários veículos incendiados, apedrejamentos, pneus a arder, contentores de lixo destruídos.

Em resposta, o governo do primeiro-ministro Luís Montenegro (PSD, direita), pela voz da ministra da Administração Interna, determinou a ocupação policial dos bairros e fez promessas de mais repressão, em nome da “ordem pública”.

A ministra, Margarida Blasco, classificou os desacatos das últimas noites como “atos de vandalismo que põem em causa a ordem e a segurança pública” e disse que tudo será feito “para levar todos aqueles que participaram nestes tumultos à justiça”. Até hoje, foram feitas três detenções…

Os atos de protesto radicais, mesmo quando têm origem em injustiças flagrantes, raramente conseguem conquistar os apoios sociais suficientes para pressionar os governos a adotar políticas que alterem as raízes da violência espontânea das comunidades e, em particular, dos jovens. Isso é historicamente conhecido.

Poucos dias depois da sua ocorrência, longe dos noticiários, passam ao esquecimento público, até que pneus voltem a ser incendiados e a repressão policial cause mais vítimas.

O governo, por seu turno, ainda que de forma encapotada, aumentará os níveis de repressão. Em nome do sossego das populações e da ordem pública, dizem. Mas, como as razões da insatisfação deverão permanecer, já que o primeiro-ministro parece não conseguir fazer mais que distribuir moedas e fazer promessas, os protestos poderão crescer e alastrar.

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