Do janelão da casa que habito, debruçada sobre o Vale dos Corvos (há quem lhe chame outros nomes), vejo as copas verdes das árvores que por aqui vão nascendo e crescendo a seu belo prazer. Ainda não sei o que lhes fazer.
É por estas bandas, no sopé de Montejunto, que me refugio do mundo, mas não da família e dos amigos, há meia dúzia de anos. Não sei por quantos mais. Acho que nesta etapa da vida, a minha, ninguém de bom senso se atreve a traçar prognósticos. Eu, que sou o interessado, também não os faço. Nem sei o que farei nas próximas semanas e muito menos nos meses que virão. É certo que vou fazendo planos, em cima de diversas variáveis. Alguns quase mirabolantes, reconheço; outros, pelo contrário, nada ousados, beirando a mesmice. Passo os dias longe do computador, como se tivesse sido acometido de alguma fobia. Mas eu sei bem qual é o mal que me acomete, quase me paralisando a vontade de escrever.
E é aqui, nestas circunstâncias, que as notícias me chegam, ainda que me queira convencer estar desinteressado. Como se estivesse indiferente às bombas que sacodem a Ucrânia, aos discursos militaristas dos senhores das guerras, aos disparates de Zelenski, às atoardas de Trump, às declarações contidas do chinês Xi, não esquecendo os políticos da nossa terrinha à beira mar plantada, não todos é claro, patetas que esticam o pescoço e se colocam em bicos de pés para aparecerem nos telejornais. Enfim, são o mal necessário destas democracias ocidentais.
Volto a Zelenski e ao grande equívoco chamado Ucrânia. O comediante de Kiev – marionete de interesses americanos, ingleses, alemães, franceses e vários outros, até dos portugueses que, por insignificantes que sejam, sempre almejam dar algumas bicadas nos milhões que serão financiados pelos grandes banqueiros, para a reconstrução.
Lembram-se do chamado “plano da vitória” que o rapaz de Kiev apresentou recentemente aos seus chefes? Pois, o plano já foi rasgado. É coisa do passado. Kiev perdeu militarmente a guerra. Inevitavelmente, Rússia e Ucrânia terão de chegar a um cessar-fogo.
Continuo a acreditar que nas guerras todos perdem, embora, como sempre acontece, se possa considerar que uns perdem mais que outros. Zelenski e os neofascistas que o acompanham, os militaristas da Nato, os euroburocratas de Bruxelas e muitos outros do chamado mundo ocidental procuram desesperadamente uma saída airosa para o atoleiro em que se meteram. Do outro lado do conflito, os dirigentes russos sabem também que não podem prolongar indefinidamente a guerra. Os recursos, embora muitos, são finitos e o nacionalismo russo e soviético, que se mostrou tão vitorioso e heróico na segunda guerra mundial, no combate ao nazismo e ao fascismo, também não é infinito.
Se os detentores dos poderes não enlouquecerem e não nos lançarem num conflito nuclear, a paz poderá estar à vista na Ucrânia. Por mim, a guerra, que começou a ser arquitetada por Washington e aliados alguns anos antes da invasão russa, nunca deveria ter começado.
Enquanto a paz não chega, homens e mulheres continuam a morrer nas frentes de combate e os gritos dos feridos que regressam estropiados às suas famílias são abafados pelo troar das armas.
Aqui, a milhares de quilómetros de distância, a noite já desceu sobre o Vale dos Corvos. O silêncio só é quebrado pelo latir de algum cachorro da vizinhança. Não sei se verei algum dos telejornais. O compromisso com a objetividade e com a humanidade, que um dia foram bandeiras do jornalismo, também parece já ter sido rasgado. Mas, a esperança é a última a morrer, dizem.

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