Por vezes, tenho a sensação que ando atrás do passado, como se quisesse resgatar o tempo, receando abrir portas para o futuro. Mas, nesta última etapa, quando a finitude se torna necessariamente mais próxima, que futuro ainda procuro? Talvez um mundo de paz, um mundo mais justo e mais humano, ou, numa escala mais egocêntrica, apenas a minha felicidade?
O que ficou para trás, o meu passado, não me envergonha, nem me entristece. Guardo saudades, talvez nostalgia, de muitas vivências nos três continentes onde cresci, lutei e fiz do jornalismo a minha profissão de mais de quatro décadas. Apenas isso, o que já não é pouco. Lembro, frequentemente, os meus pais, alguns amores, quase todos, e também os desamores, amigos e amigas de sempre, para sempre.
No presente tenho o privilégio de contar com todos os que sempre me acompanharam e continuam próximos. E são muitos. Então pode-se dizer que não devo ter razões para me queixar da vida. E, pensando bem, colocando a minha vida nos pratos da balança – uma daquelas balanças antigas em que os merceeiros aumentavam grão a grão um pouco mais ao peso -, concluo que tenho sido mais beneficiado que prejudicado. Quem sabe, o dono da balança é meu amigo oculto…
No entanto, neste pequeno mundo em que me exilei, por força de circunstancias várias, distante do bulício das grandes cidades, a solidão é cada vez mais mais presente.
Restam-me os inevitáveis trabalhos domésticos e o fazer de conta que me dedico à jardinagem, para matar o tempo que escoa, lentamente, dia após dia, semana depois de semana, num inverno que me parece mais frio e amargo que todos os outros, marcado por uma solidão não escolhida.
Apesar de tudo, já não choro o tempo passado. E volto a procurar no presente sinais de esperança para um novo futuro próximo. Uma procura ansiosa como era, suponho, a dos antigos marinheiros que, após as procelas, procuravam nos céus e nos ventos novos rumos, para atingirem a felicidade, mesmo que ela se esgotasse numa taberna de beira-porto e numa cama sem lençóis. Mas, convenhamos, talvez eu seja um pouco mais exigente que os velhos marujos. Quero mais que uma taberna de mesas encardidas e catres frios. Sou ambicioso. Quero uma felicidade mais perene, que não se esgote numa noite. Só o tempo o dirá.

Deixe um comentário