A guerra na Ucrânia continua a ceifar vidas, a destruir infraestruturas e a lançar nuvens de desesperança sobre o nosso futuro. Esta, como todas as guerras, do passado e do presente, coloca em evidência o lado mais sombrio dos seres humanos: a destruição, a apropriação, a morte.
Na Ucrânia, como na Líbia, no Iémen, em Moçambique ou no Iraque, os contendores são apadrinhados pelos senhores das armas e pelos seus acólitos. A guerra deixa rastos de destruição que perduram anos e anos.
Quando a pandemia da covid-19 nos começa a dar algum sossego e a deixar crescer a esperança de que um dia destes já poderemos deitar fora as máscaras de segurança, eis que as sirenes voltam a soar na Ucrânia e nas bases militares russas.
Ventos de medo e de tragédia voltam a soprar na Europa. Longe de Washington e de Bruxelas, onde o dia a dia se continua a fazer sem bombardeios e sem mortes, sem os dramas das perdas totais e, porventura, sem as leituras apressadas de jornalistas – que deixaram para trás princípios éticos das escolas onde, um dia, acreditaram que iam aprender a informar – o troar das armas mostra-nos que, afinal, o nosso estádio civilizacional continua distante do que todos sonhamos.
Seja como for, a guerra está na Europa. Mais uma vez. Como se o destino do velho continente fosse, sempre e para sempre, ser palco de conflitos armados, mais ou menos sangrentos. Uns mais sangrentos que outros. A par da violência da guerra, vêm as sequelas da destruição, da inflação, da especulação desenfreada, do empobrecimento, da marginalidade. Nada que a humanidade já não tivesse a obrigação de conhecer. Sempre assim foi e aconteceu, como o enriquecimento vampiresco de uma boa mão cheia de parasitas. E de políticos.
Nesta guerra, apenas mais uma das várias que decorrem um pouco por todo mundo – Iémen, Somália, Líbia, Etiópia, Sudão, Mali, Nigéria, Senegal (Casamance) e várias outras -, sopram ventos de morte e de ameaças tenebrosas. Quase dois meses depois dos primeiros disparos torna-se difícil, para mim, apontar um responsável. Há quem aponte o dedo, sem qualquer dúvida, ao diabo russo.
O agressor primeiro, o visível, o que colocou as máquinas de guerra em movimento para atravessar fronteiras. não se cansa de dar explicações. Sente-se ameaçado pelos vizinhos mais próximos que cedem territórios e soberania ao país distante que há dois séculos era uma bandeira de liberdade e progresso e que rapidamente se transformou num império que se arroga direitos planetários de polícia e força de intervenção.
Os vizinhos próximos, cujos governantes, em geral, estão alinhados ou servem aos valores mais retrógrados do capital monopolista, aproveitam a oportunidade para tentar asfixiar o velho urso que, há séculos, constrói uma cultura e uma civilização com história e características que os políticos da velha Europa teriam tudo a ganhar se a procurassem conhecer melhor. Mas, salvo raras exceções, não o fazem. E, tragicamente, aqueles que, por opção, julgo eu, assumiram a responsabilidade de informar, despem-se, na voragem dos acontecimentos, de princípios básicos, como o da independência e objetividade, e quais papagaios de pirata, repetem o que as máquinas de propaganda difundem e encenam. É uma pena!
Numa guerra há sempre alguém que vence. Aparentemente, assim é. Na realidade, mesmo que ela se desenrole a milhares de quilómetros, todos perdemos. Uns mais, muito mais que outros, é certo. Uns pagam com vidas ceifadas e destruição, outros, mais distantes, pagam com inflação, empobrecimento e limitação das liberdades.
Basta recuarmos um pouco, aos tempos que se seguiram aos finais da segunda guerra mundial, para assistirmos, documentalmente, às perseguições políticas, às prisões, à guerra-fria. Na antiga União Soviética, o ajuste de contas de Stalin com aqueles que transformou em adversários; nos Estados Unidos, a perseguição aos comunistas e progressistas, em geral; na Europa capitalista, milhões dedicados à propaganda da guerra-fria e a guerras de manutenção dos sistemas coloniais em África, Ásia e Oriente Médio; na América Latina, o apoio a regimes ditatoriais, sustentados pela corrupção. Quem perdeu e perde somos todos.
A guerra na Ucrânia terá, inevitavelmente, um desfecho. Moscovo tropeça na invasão – que não deixa de o ser por muitas e boas razões que apresente. Washington, agora com os democratas na Casa Branca, faz o que se habituou a fazer há décadas, ou seja, fomentar guerras fora do seu território. E a jovem União Europeia e os seus “boys”, mesmo os que vestem a pele de “socialistas”, assume, por enquanto, o papel de acólita do Tio Sam, mas as consequências do seu envolvimento subserviente irão repercutir-se negativamente numa frágil unidade, que até poderia ser ideal, não tivesse sido esculpida artificialmente. Quanto a Kiev, parece-me, passará no curto prazo de protagonista de filme de western norte-americano, classe B, a mau exemplo de insensatez e de carne para canhão.
Finalmente, as sanções. As tais sanções que os políticos norte-americanos, os seus aliados da NATO e de Bruxelas acreditam que colocarão os russos de joelhos. O que dizer? Parece-me que ainda lêem o “Alice no país das maravilhas”. A Rússia pode ter cometido erros de cálculo político-militar, pode até não ter previsto as consequências das sanções, mas dificilmente terá avançado sem contar com alternativas políticas e económicas. O mundo não se resume à União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Austrália e mais alguns. E, do outro lado, há a China. E vastas terras e mercados, mesmo que pequenos, onde a imposição norte-americana de políticas unipolares está desgastada e é contestada.
Como disse (11 abril 2022) a moçambicana Graça Machel, viúva do primeiro presidente de Moçambique, Samora Machel, e do primeiro presidente pós-apartheid da África do Sul, Nelson Mandela, “o Governo [moçambicano] está a fazer muito bem em abster-se nesta votação [ONU], há muitas outras questões que estão por detrás daquilo que levou a este conflito [Rússia-Ucrânia], que não estão sendo postas em cima da mesa”. Reagindo à “chantagem” que diplomatas dos países “ocidentais” têm feito, Graça Machel afirmou: “Nós estamos a ser forçados a tomar ou um ou outro lado, o que nós estamos a dizer é que nós não tomamos nem um nem outro [lado], enquanto os interesses que estão por detrás e que levaram a este conflito não forem muito claros”, declarou.
Na verdade, continuamos a aprender muito pouco com o passado. Mas, apesar de tudo, contrariamente aos hipócritas e mercenários de todos os matizes que pululam lá e cá, continuo a acreditar num futuro de liberdades e de paz. Mesmo que esteja muito além de mim. Não se trata de uma questão de fé. É apenas um percurso dialético da nossa história, a história da humanidade.
Alfredo Prado
Artigo publicado originalmente a 19/04/2022 no Portugal Digital e no África 21 Digital.

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